Introdução :

O estudo de hoje, objetiva apresentar-nos uma visão correta sobre o verdadeiro estado do homem separado de Deus. Em Romanos 3:10-12 o apóstolo Paulo apresenta o grau da decadência humana. Paulo usa palavras enfáticas para mostrar que não há exceções a esta acusação, entre homens decaídos. A declaração “não há quem faça o bem, não há nenhum sequer” deixa uma grande dúvida em muita gente. Crescemos ouvindo que ninguém é perfeito e que errar é humano. Estamos prontos a reconhecer que nenhum de nós é perfeito. É fácil admitir que somos pecadores; mas, que nenhum de nós nem mesmo faz o bem, é um tanto demais. Nem uma pessoa em mil admitirá que o pecado é tão serio assim. Ninguém faz o bem? Como pode ser isso? Todos os dias vemos pagãos convictos fazendo o bem. Vemo-los praticando heróicos atos de sacrifício, honestidade. Vemos incrédulos obedecendo à risca aos limites de velocidade. Como se explica essas palavras de Paulo? Será esta uma figura de linguagem usada pelo apóstolo? Certamente há pessoas que fazem o bem. Não! O sóbrio julgamento de Deus é que ninguém faz o bem, nem um sequer. Tropeçamos aqui porque temos um entendimento relativo do que é bem. Bem é, de fato, um termo relativo. Alguma coisa só pode ser julgada boa de acordo com algum tipo de padrão. Usamos o termo como uma comparação entre homens.

Quando dizemos que um homem é bom, queremos dizer que ele é bom comparado com outros homens. Mas o padrão definitivo para a bondade, o padrão pelo qual seremos julgados, é a lei de Deus. A lei não é Deus, mas vem de Deus e reflete o caráter perfeito do próprio Deus. Julgado segundo esse padrão ninguém é perfeito. Nas categorias bíblicas, uma boa ação é medida em duas partes. A primeira é em sua conformidade externa com a lei de Deus. Isto significa que, se Deus proíbe roubar, então é bom que eu não roube. É bom assistir as pessoas em suas necessidades. Externamente, estas virtudes são praticadas todos os dias. Quando as vemos, imediatamente concluímos que os homens de fato fazem coisas boas. É a segunda parte da medida que nos coloca em problemas. Antes que Deus pronuncie a palavra “bem”, Ele considera não somente a conformidade externa com sua lei, mas também a motivação. Nós olhamos somente para as aparências externas; Deus lê o coração. Para uma obra ser considerada boa, ela precisa não somente conformar-se externamente com a lei de Deus, mas deve ser motivada internamente por um sincero amor por Deus. A partir dessa perspectiva, é fácil ver que ninguém faz o bem. Nossas melhores obras são contaminadas por nossos motivos menos do que puros. Queremos negar essa alegação. Queremos pensar que somos verdadeiramente humildes e bonzinhos. Mas ninguém jamais nos elogia mais do que nós nos elogiamos.

O peso de nossos motivos, pode, às vezes, tender fortemente em direção do altruísmo, mas nunca esta´ perfeitamente la´. Deus, porém exige perfeição. Ninguém de nós tem um desempenho a esse nível. (Eleitos de Deus, R.C. Sproul, p.80) Porque o homem natural é incapaz de “vir a Cristo”? Leia João 6:44. Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer. ” A razão pela qual “duro é esse discurso”, até mesmo para milhares que professam ser cristãos, é que eles fracassam completamente em compreender o terrível estrago que a queda provocou; e, o que é pior, eles mesmos não se dão contam da “chaga” que existe nos seus próprios corações (1 Rs. 8:38). Certamente se o Espírito já os tivesse despertado do sono da morte espiritual, e lhes dado ver alguma coisa do pavoroso estado em que estão por natureza, e feito sentir que suas “mentes carnais” são “inimizade contra Deus” (Rm. 8:7), então eles não mais discordariam dessa palavra de Cristo.

Onde reside a total incapacidade do homem natural?

1. Ela não está na falta das faculdades necessárias. Isso tem de ser bastante enfatizado, do contrário o homem caído deixaria de ser uma criatura responsável. Mesmo que os efeitos da queda tenham sido terríveis, eles não privaram o homem de nenhuma das faculdades (condições de pensar, sentir, e agir) que Deus originalmente lhe concedeu. É verdade que o pecado tirou do homem a capacidade de utilizar essas faculdades corretamente, ou seja, empregá-las para a glória do Criador. De fato, o homem morreu espiritualmente, mas a morte não é a extinção do ser (aniquilação) – morte espiritual é a separação de Deus (Ef. 4:18). Aquele que é espiritualmente morto está bem vivo e ativo no serviço de Satanás.

2. Não reside em nenhum defeito físico ou mental. Ele tem o mesmo pé para levá-lo tanto a um local onde o Evangelho é pregado, como para caminhar até um bar. Ele tem os mesmos lábios e voz para clamar a Deus os quais usa agora em conversas nem um pouco proveitosas. Assim, também, possui as mesmas faculdades mentais para ponderar sobre as coisas de Deus e sobre a eternidade, as quais ele utiliza tão diligentemente nos seus negócios. É por causa disso que o homem é “indesculpável”. É o mau uso das faculdades que o Criador lhe concedeu que aumenta a sua culpa.

3. Reside na disposição da nossa natureza. Como já vimos, por causa da queda de Adão, e por causa do nosso próprio pecado, a nossa natureza se tornou tão corrompida e depravada que é impossível para qualquer homem “vir a Cristo”, ama-lO e servi-lO, estima-lO mais que tudo neste mundo e submeter-se a Ele, até que o Espírito de Deus o regenere e implante nele uma nova natureza. A fonte amarga não pode jorrar água doce, nem a árvore má produzir bons frutos. Deixe-me tentar explicar isso melhor através de uma ilustração. É da natureza de um abutre alimentar-se de carniça; no entanto, ele tem os mesmos órgãos e membros que lhe permitiriam comer grãos, como fazem as galinhas, mas ele não possui nem a disposição nem o apetite para tal alimento. É da natureza da porca o chafurdar na lama; e apesar dela possuir pernas como a ovelha para levá-la à campina, lhe falta entretanto o desejo por pastos verdejantes. Assim acontece com o homem não-regenerado. Ele tem as mesmas faculdades físicas e mentais que o homem regenerado possui para empregar no serviço e nas coisas de Deus, mas não tem amor por elas.

Leia Rm 3:10-18; 3:23; Sl 51:5; Rm 3:11(consciência corrompida)

Desde que idade essa corrupção da natureza aparece nas crianças? “Até a criança se dá a conhecer pelas suas obras” (Pv. 20:11). A corrupção do seu coração logo se manifesta: orgulho, vontade própria, vaidade, mentira, aversão ao que é bom, são frutos amargos que cedo brotam no novo, mas corrupto, ramo.

3.1. No homem separado de Deus existe uma oposição e aversão pelas coisas espirituais . Deus revelou a Sua vontade aos pecadores no tocante ao caminho da salvação, contudo eles não trilharam esse caminho. Eles sabem que somente Cristo é capaz de salvá-los, no entanto eles recusam se separar das coisas que obstruem o seu caminho até a Ele. Eles ouvem que é o pecado que mata a alma, no entanto o afagam em seu peito. O mandamento divino é “santo, justo e bom”, mas o homem o odeia, e só o observa enquanto a sua respeitabilidade é promovida entre os homens

3.2 . Os sentimentos do homem separado de Deus são totalmente depravados e desordenados. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Jr. 17:9). O Senhor Jesus afirmou solenemente que os sentimentos do homem caído (não regenerado) são a fonte de toda abominação: “Porque de dentro do coração do homem, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, a malícia, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura” (Mc. 7:21,22). Os sentimentos do homem natural estão miseravelmente deformados. Sua face está voltada para o inferno; por isso Deus o chama para converter-se. Ele se alegra com o que deveria entristecê-lo, e se entristece com o que deveria alegrá-lo; se gloria com a vergonha, e se envergonha da sua glória; abomina o que deveria desejar, e deseja o que deveria abominar (Pv. 2:15-15) (extraído do Boston’s Fourfold State).

“O homem, no estado em que se encontra, antes de receber a graça de Deus, ama tudo e qualquer coisa que não seja espiritual. Se você quiser uma prova disso, olhe ao seu redor. Não há necessidade de nenhum monumento à depravação dos sentimentos humanos. Olhe por toda parte. Não há uma rua, uma casa, e não somente isso, nenhum coração, que não possua uma triste evidência dessa terrível verdade. Por que no Dia do Senhor o homem não é encontrado congregando-se na casa de Deus?

Por que não nos achamos mais freqüentemente lendo nossas Bíblias? O que acontece para a oração ser um dever quase que totalmente negligenciado? Por que Jesus Cristo é tão pouco amado? Por que até mesmo os seus seguidores professos são tão frios em seus sentimentos para com Ele? De onde procedem essas coisas? Seguramente, caros irmãos, nós não podemos creditá-las a outra fonte que não a corrupção e a perversão dos sentimentos. Nós amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar. Não é outra coisa senão a natureza humana caída que nos faz amar esta vida mais do que a vida por vir. É um efeito da Queda o fato do homem amar o pecado mais que a justiça, e os caminhos do mundo mais que os caminhos de Deus”. (Sermão de C.H. Spurgeon em Jo. 6:44).

3.3. A incapacidade está na total perversão da sua vontade . “O homem pode ser salvo se ele quiser”, dizem algumas pessoas. Nós lhe respondemos, “Caros ouvintes, nós todos cremos nisso; mas essa é que é a dificuldade – se ele quiser.” Nós afirmamos que nenhum homem deseja vir a Cristo por sua própria vontade…” não, não somos nós que o dizemos, mas Cristo mesmo declara: “Contudo não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo. 5:40); e enquanto esse “não quereis vir” estiver registrado nas Escrituras nós não podemos ser levados a crer em nenhuma doutrina do livre arbítrio. “É estranho como as pessoas, quando falam sobre livre arbítrio, falam de coisas das quais nada compreendem. Um diz “Ora, eu creio que o homem pode ser salvo ser ele quiser”. Mas essa não é toda a questão. O problema é: é o homem naturalmente disposto a se submeter aos termos do Evangelho de Cristo? Afirmamos, com autoridade bíblica, que a vontade humana é tão desesperadamente dada ao engano, tão depravada, e tão inclinada para tudo que é mau, e tão avessa a tudo aquilo que é bom, que sem a poderosa, sobrenatural e irresistível influência do Espírito Santo, nenhum homem nunca será constrangido a buscar a Cristo.” (C.H. Spurgeon).

Conclusão :

Pode ser que alguns ouvintes sejam inclinados a dizer: “ensinamentos como estes desencorajam pecadores e os levam ao desespero”. Nossa resposta é: Primeiro, eles estão de acordo com a Palavra de Deus! Segundo, esperamos que Ele se agrade em usar essas verdades para levar alguns a desesperarem-se de qualquer ajuda que possam encontrar neles mesmos. Terceiro, esse ensino manifesta a absoluta necessidade da obra do Espírito Santo nessas criaturas depravadas e espiritualmente impotentes, se algum dia vierem salvificamente a Cristo. Então, até que isso seja claramente entendido, o Seu auxílio nunca será realmente buscado. O apóstolo solenemente lembra os santos, “Pois outrora éreis trevas” (Ef. 5:8), não somente estavam “em trevas”, mas eram as próprias “trevas”. Esse é o seu caso quem quer que você seja, se ainda não nasceu de novo” (Thomas Boston, 1680). Nós nascemos espiritualmente cegos, e não podemos ter essa visão restaurada sem um milagre da graça. É exatamente sobre essa única solução que estudaremos próxima semana: A graça.